29 de janeiro de 2013

O Puto de Cabelos Verdes, ou como crescer deixa marcas... umas boas, outras más

Só então o puto dos cabelos verdes percebeu que crescera, e não era mais uma fotografia no quarto dos pais, de camisola de gola alta e olhar meigo...

Perdera, há muito, a franja que quase lhe cobria os olhos e deixara as botas que lhe corrigiam os passos... Cobrira o rosto de uma penugem insurta e insistia em esconder os fios brancos com um radical corte de cabelo...

O puto pensou nas quatro décadas que deixava para trás e em tudo de bom que vivera, sem esquecer nunca os momentos menos risonhos que a vida o obrigara a enfrentar...

Pensou nos dias felizes [expressão curiosa, dadas certas circunstâncias...] e nas alegrias que sentira... A escola, os amigos [alguns que o tempo levara...], os amores [grandes e pequenos], as alegrias e tristezas... A primeira vez que sentira os prazeres carnais e a surpresa de se descobrir maior que si mesmo... Saber o homem que era, as certezas que tinha, as convicções e crenças de que não abdicara nunca... e as dúvidas sobre as mesmas certezas, porque acreditara que a força de um desejo é capaz de mover montanhas...

Lembrou-se dos que partiram [físicamente] e das dores que suportara, tantas vezes em silêncio... A mulher de cabelos brancos, que lhe ensinara a cartilha do ser humano, e partira num dia de Novembro... Aquela outra que, não lhe tendo dado a vida, o amara como a um filho se ama, e de quem sentia tanta saudade... Uma mulher de ar austero, mas a quem queria tanto, e um homem difícil de entender, mas com quem aprendera algo [talvez não as melhores coisas...].

Virou o rosto e contemplou o sorriso [ainda hoje] fascinante daquela que fora, "tão somente", a grande paixão da sua vida... Pensou nos Novembros, Junhos e Janeiros, nos começos, nas conquistas e nas partidas... Pensou em como tivera tudo o que o fazia feliz, e que de tudo abdicara para que a felicidade de outro alguém fosse a sua própria "alegria"...

Pensou nas terras distantes e quentes, naquela que visitara em pequeno e noutra que marcara o principio do fim... Pensou que amar é deixar partir, mesmo que o coração nos doa, e que a distancia, por vezes, é maior que os quilómetros que nos separam...

Pensou nos alguéns que só ele conhecia, nos segredos que carregava e erros que lamentava... sabendo que o repetiria...

Pensou em si, naqueles que nunca o abandonaram, aqueles que lhe apontaram um caminho, que tinham por certo, e com ele seguiram por outro bem diverso, porque ele assim o quis... Pensou em quem lhe deu a vida... Naquele que era sangue do seu sangue... Naquelas que, o não sendo, o queriam como um irmão... Na filha que o não era, mas por quem assumira um vinculo de compromisso...

Pensou que o passado não pode prender o futuro e que o seu destino seria aquele que já o esperava...

Pensou que estava vivo e que o amanhã esperava por ele...

Parabéns Luis...


13 de janeiro de 2013

Memória da ausência


No início, tudo parecia simples, a vida corria sem percalços e todos os sonhos eram possíveis... Tu estavas aqui, ao meu lado, e dividíamos os problemas, fossem eles grandes ou pequenos, de fácil ou difícil solução. Acontecesse o que acontecesse, tu estavas aqui...

Com o passar dos dias, as certezas foram crescendo, ganhando forma, escapando-nos por entre os dedos. Não era já possível conter os sentimentos... para o bem ou para o mal, estávamos juntos, ligados umbilicalmente... Avançámos...

O caminho era mais fácil, porque trilhado a dois, e de mãos dadas avançávamos sem receios. Em cada encruzilhada, em cada curva, não olhávamos para trás... futuro estava à nossa frente.

Sento-me, agora, sozinho, com uma moldura como única companhia, e martelo, de forma nervosa, as teclas do computador. Vejo surgir, letra a letra, linha a linha, um reflexo dos meus pensamentos mais profundos, como algo que me sufoca e que não quero mais calar.

Porque a tua ausência magoa, marca e deixa ferida. Sobretudo à noite, quando o silêncio é maior e escuro preenche os espaços vazios. A ausência do teu corpo, do teu cheiro e da tua voz percorre as ruas por onde já passámos um dia, e deixa nas paredes mensagens de amor e solidão, do meu amor por ti e da minha solidão porque tu não estás.

Sento-me, novamente, e respiro fundo... Fecho os olhos e procuro adormecer... E espero que tu voltes...

11 de janeiro de 2013

pausa para discussão

- Patético...

- Desculpa... Não percebi... [pergunto eu, interrompendo a leitura]

- Disse que és patético... Simplesmente, patético...

- E isso vem a propósito de quê? [confesso... quando estou a ler, tenho dificuldade em perceber aquilo que se passa à minha volta]

- Não vem a propósito de nada... Ou de tudo, se quiseres... És patético... Só isso...

[começo a perder a paciência... mas tento não dar o flanco]

- Posso saber a que te referes? [insisto]

- A essa tua mania do conformismo... do "está tudo bem"... do "não me quero chatear"...

- E... [procuro fingir que não alcanço]

- E é patético... tudo isso... patético...

- Que seja, então... Sou patético... E que queres que faça? [reabro o livro] Acho que já estou velho para mudar...

- Pois... Talvez seja isso...