[À memória de José da Silva Mendes]
A vida não se torna mais fácil só porque sabemos que certos desfechos são previsiveis...
Mas as contrariedades que temos que enfretar tornam-se mais leves quando somos capazes de guardar as memórias daqueles que nos são queridos...
O homem de quem nos despedimos (marido, pai, irmão, avô, tio...) deixará em cada um de nós uma recordação especial... E é isso que devemos dele guardar...
Nem sempre podemos escolher aqueles com quem nos relacionamos... Não foi por sua vontade, ou mesmo pela minha, que nos tornámos avô e neto... Foram as circunstâncias da vida que assim o ditaram...
Mas orgulho o de o ter como padrinho, foi uma honra que ele me concedeu... E o facto de o ter escolhido como modelo de homem, na família como em tantos outros momentos da vida, foi uma escolha que fiz livremente...
Alguém disse, um dia, que só partimos de verdade quando não restar mais ninguém que nos tenha conhecido e connosco convivido... Que essas palavras, então, possam fazê-lo viver por muitos e bons anos...
Mais do que as palavras que possamos dizer, guardemos o "Pai", o "Padrinho", o "Avô Mendes", o "Tio Zé" ou, simplesmente, o "Zé" no nosso coração e na nossa memória...
Guardarei, por certo, a sua terna afeição, esperando pelo dia em que nos poderemos reencontrar num "Pocinho" qualquer...
Adeus Avô...
24 de setembro de 2013
29 de janeiro de 2013
O Puto de Cabelos Verdes, ou como crescer deixa marcas... umas boas, outras más
Só então o puto dos cabelos verdes percebeu que crescera, e não era mais uma fotografia no quarto dos pais, de camisola de gola alta e olhar meigo...
Perdera, há muito, a franja que quase lhe cobria os olhos e deixara as botas que lhe corrigiam os passos... Cobrira o rosto de uma penugem insurta e insistia em esconder os fios brancos com um radical corte de cabelo...
O puto pensou nas quatro décadas que deixava para trás e em tudo de bom que vivera, sem esquecer nunca os momentos menos risonhos que a vida o obrigara a enfrentar...
Pensou nos dias felizes [expressão curiosa, dadas certas circunstâncias...] e nas alegrias que sentira... A escola, os amigos [alguns que o tempo levara...], os amores [grandes e pequenos], as alegrias e tristezas... A primeira vez que sentira os prazeres carnais e a surpresa de se descobrir maior que si mesmo... Saber o homem que era, as certezas que tinha, as convicções e crenças de que não abdicara nunca... e as dúvidas sobre as mesmas certezas, porque acreditara que a força de um desejo é capaz de mover montanhas...
Lembrou-se dos que partiram [físicamente] e das dores que suportara, tantas vezes em silêncio... A mulher de cabelos brancos, que lhe ensinara a cartilha do ser humano, e partira num dia de Novembro... Aquela outra que, não lhe tendo dado a vida, o amara como a um filho se ama, e de quem sentia tanta saudade... Uma mulher de ar austero, mas a quem queria tanto, e um homem difícil de entender, mas com quem aprendera algo [talvez não as melhores coisas...].
Virou o rosto e contemplou o sorriso [ainda hoje] fascinante daquela que fora, "tão somente", a grande paixão da sua vida... Pensou nos Novembros, Junhos e Janeiros, nos começos, nas conquistas e nas partidas... Pensou em como tivera tudo o que o fazia feliz, e que de tudo abdicara para que a felicidade de outro alguém fosse a sua própria "alegria"...
Pensou nas terras distantes e quentes, naquela que visitara em pequeno e noutra que marcara o principio do fim... Pensou que amar é deixar partir, mesmo que o coração nos doa, e que a distancia, por vezes, é maior que os quilómetros que nos separam...
Pensou nos alguéns que só ele conhecia, nos segredos que carregava e erros que lamentava... sabendo que o repetiria...
Pensou em si, naqueles que nunca o abandonaram, aqueles que lhe apontaram um caminho, que tinham por certo, e com ele seguiram por outro bem diverso, porque ele assim o quis... Pensou em quem lhe deu a vida... Naquele que era sangue do seu sangue... Naquelas que, o não sendo, o queriam como um irmão... Na filha que o não era, mas por quem assumira um vinculo de compromisso...
Pensou que o passado não pode prender o futuro e que o seu destino seria aquele que já o esperava...
Pensou que estava vivo e que o amanhã esperava por ele...
Parabéns Luis...
Perdera, há muito, a franja que quase lhe cobria os olhos e deixara as botas que lhe corrigiam os passos... Cobrira o rosto de uma penugem insurta e insistia em esconder os fios brancos com um radical corte de cabelo...
O puto pensou nas quatro décadas que deixava para trás e em tudo de bom que vivera, sem esquecer nunca os momentos menos risonhos que a vida o obrigara a enfrentar...
Pensou nos dias felizes [expressão curiosa, dadas certas circunstâncias...] e nas alegrias que sentira... A escola, os amigos [alguns que o tempo levara...], os amores [grandes e pequenos], as alegrias e tristezas... A primeira vez que sentira os prazeres carnais e a surpresa de se descobrir maior que si mesmo... Saber o homem que era, as certezas que tinha, as convicções e crenças de que não abdicara nunca... e as dúvidas sobre as mesmas certezas, porque acreditara que a força de um desejo é capaz de mover montanhas...
Lembrou-se dos que partiram [físicamente] e das dores que suportara, tantas vezes em silêncio... A mulher de cabelos brancos, que lhe ensinara a cartilha do ser humano, e partira num dia de Novembro... Aquela outra que, não lhe tendo dado a vida, o amara como a um filho se ama, e de quem sentia tanta saudade... Uma mulher de ar austero, mas a quem queria tanto, e um homem difícil de entender, mas com quem aprendera algo [talvez não as melhores coisas...].
Virou o rosto e contemplou o sorriso [ainda hoje] fascinante daquela que fora, "tão somente", a grande paixão da sua vida... Pensou nos Novembros, Junhos e Janeiros, nos começos, nas conquistas e nas partidas... Pensou em como tivera tudo o que o fazia feliz, e que de tudo abdicara para que a felicidade de outro alguém fosse a sua própria "alegria"...
Pensou nas terras distantes e quentes, naquela que visitara em pequeno e noutra que marcara o principio do fim... Pensou que amar é deixar partir, mesmo que o coração nos doa, e que a distancia, por vezes, é maior que os quilómetros que nos separam...
Pensou nos alguéns que só ele conhecia, nos segredos que carregava e erros que lamentava... sabendo que o repetiria...
Pensou em si, naqueles que nunca o abandonaram, aqueles que lhe apontaram um caminho, que tinham por certo, e com ele seguiram por outro bem diverso, porque ele assim o quis... Pensou em quem lhe deu a vida... Naquele que era sangue do seu sangue... Naquelas que, o não sendo, o queriam como um irmão... Na filha que o não era, mas por quem assumira um vinculo de compromisso...
Pensou que o passado não pode prender o futuro e que o seu destino seria aquele que já o esperava...
Pensou que estava vivo e que o amanhã esperava por ele...
Parabéns Luis...
13 de janeiro de 2013
Memória da ausência
No início, tudo parecia simples, a vida corria sem percalços e todos os sonhos eram possíveis... Tu estavas aqui, ao meu lado, e dividíamos os problemas, fossem eles grandes ou pequenos, de fácil ou difícil solução. Acontecesse o que acontecesse, tu estavas aqui...
Com o passar dos dias, as certezas foram crescendo, ganhando forma, escapando-nos por entre os dedos. Não era já possível conter os sentimentos... para o bem ou para o mal, estávamos juntos, ligados umbilicalmente... Avançámos...
O caminho era mais fácil, porque trilhado a dois, e de mãos dadas avançávamos sem receios. Em cada encruzilhada, em cada curva, não olhávamos para trás... futuro estava à nossa frente.
Sento-me, agora, sozinho, com uma moldura como única companhia, e martelo, de forma nervosa, as teclas do computador. Vejo surgir, letra a letra, linha a linha, um reflexo dos meus pensamentos mais profundos, como algo que me sufoca e que não quero mais calar.
Porque a tua ausência magoa, marca e deixa ferida. Sobretudo à noite, quando o silêncio é maior e escuro preenche os espaços vazios. A ausência do teu corpo, do teu cheiro e da tua voz percorre as ruas por onde já passámos um dia, e deixa nas paredes mensagens de amor e solidão, do meu amor por ti e da minha solidão porque tu não estás.
Sento-me, novamente, e respiro fundo... Fecho os olhos e procuro adormecer... E espero que tu voltes...
11 de janeiro de 2013
pausa para discussão
- Patético...
- Desculpa... Não percebi... [pergunto eu, interrompendo a leitura]
- Disse que és patético... Simplesmente, patético...
- E isso vem a propósito de quê? [confesso... quando estou a ler, tenho dificuldade em perceber aquilo que se passa à minha volta]
- Não vem a propósito de nada... Ou de tudo, se quiseres... És patético... Só isso...
[começo a perder a paciência... mas tento não dar o flanco]
- Posso saber a que te referes? [insisto]
- A essa tua mania do conformismo... do "está tudo bem"... do "não me quero chatear"...
- E... [procuro fingir que não alcanço]
- E é patético... tudo isso... patético...
- Que seja, então... Sou patético... E que queres que faça? [reabro o livro] Acho que já estou velho para mudar...
- Pois... Talvez seja isso...
- Desculpa... Não percebi... [pergunto eu, interrompendo a leitura]
- Disse que és patético... Simplesmente, patético...
- E isso vem a propósito de quê? [confesso... quando estou a ler, tenho dificuldade em perceber aquilo que se passa à minha volta]
- Não vem a propósito de nada... Ou de tudo, se quiseres... És patético... Só isso...
[começo a perder a paciência... mas tento não dar o flanco]
- Posso saber a que te referes? [insisto]
- A essa tua mania do conformismo... do "está tudo bem"... do "não me quero chatear"...
- E... [procuro fingir que não alcanço]
- E é patético... tudo isso... patético...
- Que seja, então... Sou patético... E que queres que faça? [reabro o livro] Acho que já estou velho para mudar...
- Pois... Talvez seja isso...
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