10 de agosto de 2015

Quando tu sorrias...

(para uma amiga que perdeu o sorriso...)

Na espuma dos dias, perdidos na multidão, tu eras a amiga sincera, a mulher bonita, que estava lá para me ouvir, para nos ouvir, forte como um rochedo, sem dúvidas ou hesitações...

Tinhas as certezas todas e sabias onde querias chegar. Na tua cabeça, tudo era claro... o que querias, para onde ias, com quem ias ficar...

Ao teu lado, era fácil brilhar, e esse espaço tinha um ocupante. As razões e motivos eram um espelho da tua alma gémea. Os teus planos eram traçados com régua e compasso, e o teu companheiro de navegação tinha um nome e um rosto.

Pouco a pouco, o teu rosto foi perdendo o brilho e o teu sorriso deixou de ser espontâneo. Se estavas (aparentemente) feliz, essa felicidade já não era a mesma. Tu sabias isso... nós só desconfiavamos...

Sem comos nem porquês, algo se evaporou, se perdeu no éter. No outro lado do espelho, a imagem tornou-se difusa, fosca, apagada... Nós percebemos... tu também (acho eu)...

Que é feito daquela mulher forte e decidida? Onde está o sorriso descomprometido que me cativava? Porque choras tu, princezinha de ganchos na cabeça?

Sabes, os dias eram mais belos quando tu eras feliz...

[Publicado originalmente em Universo Delirante]

7 de agosto de 2015

Saudades Tuas

Lentamente, o meu corpo deixou de ter saudades do teu, e a tua presença já não marca as minhas noites de insónia...

A lembrança dos teus beijos desvanece-se-me na memória, como o orvalho ao nascer do dia...

As horas que passámos juntos pertencem já a um passado distante, ao qual não podemos jamais regressar, pois das portas que atrás de nós se fecharam, perdi para sempre a chave... numa rua, numa praça... já nem sei bem onde...

Quero que saibas... Já não sou o mesmo miúdo que, um dia, se aproximou de ti, em busca de amor, e contigo se perdeu numa teia de emoções. Já não sou aquele ser frágil que te endeusou e fez de ti um farol na noite escura.

Faz hoje seis meses que te deixei para trás, meu rochedo em noite de tempestade, como um marco que nunca apagarei da minha vida, mas que, sei-o bem, não mais fará parte do meu presente.

Procuro negar, vezes sem conta, que não foste mais uma, entre as muitas que partilharam o meu corpo, e a quem me entreguei sem limites. Procuro ainda acreditar que, sem ti, os meus dias teriam sido iguais e que as noites não teriam sido menos tórridas.

Procuro, desesperadamente, negar que a tua ausência em mim é um fardo, por vezes, bem difícil de suportar... Procuro esquecer-te...

Sabes, princesa... Tenho saudades tuas...

Despedida

Ninguém me disse que podia ser feliz contigo, que os dias iam ser mais fáceis ou bonitos, nem eu pensei ser possível ser feliz só por te amar, sorrindo todos os dias da mesma forma inocente e infantil... Mas bastava-me o teu olhar apaixonado, o teu ar de menina mimada, que me enchia o coração de esperança.

É verdade que juntos nunca olhámos as estrelas, nunca olhámos o céu, mas em sonhos acordados, caminhámos muitas vezes na mesma direcção, talvez (...sei-o hoje...) para o vazio, mas aquele vazio que faz girar o mundo, os corações baterem mais forte e os homens continuarem a sonhar!

Talvez, não sei...

Mas, nos momentos da nossa maior solidão, pensámos um no outro com um brilho especial, com a tal ternura com que me acariciavas a face, me beijavas a testa e dizias que... me amavas.

Devaneio momentâneo, loucura de almas carentes... Não sei... Uma coisa eu tenho por certa... É que, enquanto estiveste presente em mim, foste o meu vício, a minha completa adição de amor!!!

Ainda te guardo perto... tão perto e profundo... que não consigo sentir-me só!

Adeus...

6 de agosto de 2015

Palavras por dizer...

Deixei tanta coisa por dizer... Tanta coisa por te dizer...

Faltou-me o tempo para te elogiar, para te motivar, para te dirigir palavras ternas... Mas também para te "repreender", para te apontar as pequenas falhas, para te criticar ou censurar pelas tuas inseguranças...

Mais que tudo, faltou-me o tempo para te dizer como eras importante... Que para mim, para a minha existência, tu eras importante... Não como algo que "dá jeito ter", mas como um elo que unia as diversas partes e dava coerência ao meu uno corpóreo...

Gastei demasiado tempo a formular a pergunta inicial, o modo como te devia abordar e dar a conhecer o meu universo... Fui avançando por tentativa e erro, caindo aqui e logo me reerguendo, regressando à estrada principal quando me deparava com um beco sem saída...

Aos poucos, fui conhecendo as regras do (nosso) jogo, lendo os teus sinais e percebendo os teus porquês... Lentamente, o puzzle começou a fazer sentido e as peças começaram a encaixar cada vez mais depressa...

Deixei de caminhar solitário, pela berma da estrada, fustigado pelo sol e pela chuva... Aquele, agora, era o nosso caminho, o trilho que conduzia ao topo do vulcão, e seria a dois que o percorreríamos... Quando o cansaço chegasse, pegar-te-ia ao colo, e se as pernas me faltassem, seria no teu regaço que repousaria a minha cabeça...

Criança ingénua, não vi (ou será que não quis ver?) os nós que teria que desatar, as cordas que te amarravam... As cordas e os nós que as minhas artes de marinheiro de água doce não poderiam nunca cortar...

Agora, é tarde demais para lamentar os silêncios... As palavras, quando não ditas no tempo certo, perdem o seu sentido original...

Por isso, ficarei imóvel a ver-te partir, nas asas do teu destino...

5 de agosto de 2015

O (Teu) Lugar Sagrado

Como quem revela um segredo só seu, guiaste-me, pelo escuro da noite, até ao teu lugar sagrado, ao refúgio mais remoto da tua sensibilidade e pureza... Como quem partilha um pedaço de si, abriste as portas do teu oráculo e revelaste-me a fonte da tua inspiração, a génese da tua criação...

E ali ficámos os dois, no alto daquele promontório, insensíveis ao frio que envolvia os nossos corpos, olhando o mar lá ao longe, escutando o silêncio da noite... Na quietude das horas tardias, já nada se movia, nem o vento, nem os pássaros... Nem mesmo nós, dois corpos imóveis e (quase) inanimados...

Das nossas bocas fechadas, deixámos sair os segredos que guardávamos, verdades não reveladas... A cada segundo que passava, a cada palavra que dizíamos em silêncio, fomos abrindo a caixa de pandora e libertando os nossos demónios...

E, por magia, a noite já não era tão escura e o frio já não gelava nossos corpos... E os silêncios (os silêncios que tantas vezes nos sufocaram!) eram a mais bela melodia que jamais alguém compusera, cada palavra ausente uma nota sustenida até ao infinito...

Já rendidos, fizemos amor com as palavras e os gestos, selando promessas de fidelidade eterna... Como quem escreve um poema, demos novos significados e sentidos aos nossos velhos conceitos...

Como quem guarda um segredo só seu, escondido dos olhos do mundo, fizemos daquele promontório o nosso lugar sagrado...

4 de agosto de 2015

Jogo do Pensamento

Pego na caneta e escrevo, de forma compulsiva e sem grande noção das palavras que se vão soltando do aparo...

Escrevo e penso, penso e escrevo... Deixo que a folha de papel branco se encha de palavras, de sentidos e sentimentos... Cada memória que guardo é agora uma frase desconexa (?), uma busca desesperada de um sentido que procuro (des/re)conhecer...

Faço malabarismos com as palavras, baralho as cartas que são os meus próprios pensamentos, ordeno o dominó da minha vida... Jogo com sentidos e significados, procurando dar forma a um castelo tão frágil como as cartas que o compõem...

Ao meu lado (ou à minha frente, não sei...), na mesa em que me sento, repousa um tabuleiro de xadrez, em que as peças se/me confundem... A Rainha já não ataca; foge dos peões que a cercam... O Rei já não teme o Xeque-Mate; vagueia pelas quadriculas, perdido... O Bispo, negro como um corvo, não se move em diagonais; caminha livre sobre o tabuleiro e bloqueia qualquer tentativa de fuga...

E eu, aprendiz de tabelião, procuro dar forma ao testamento que são estas palavras... Testamento de vida, não de morte... Últimas vontades, mas não derradeiras, que deixo a mim próprio e não aqueles que se me seguirão...

Pouso a caneta e (re)leio, de olhos fechados, o texto que é a minha confissão... De que estou vivo e não moribundo... Que olho a alvorada e não o crepúsculo...

Disse-me um velho bardo que há mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha a minha vã filosofia... E eu acredito... Por isso, fecho os olhos de novo e sonho...